Curitiba, 09 de fevereiro de 2010.
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LEVEZA NA DESGRAÇA
Nos contos de Transversais do tempo, Tailor Diniz aborda a crueldade humana e o inusitado das situações extremas

Moacyr Godoy Moreira • São Paulo – SP

Transversais do tempo
Tailor Diniz
Bertrand Brasil
128 págs.


Transversais do tempo, de Tailor Diniz, começa muito bem. Cíntia Moscovich, uma das mais expressivas autoras contemporâneas brasileiras, na apresentação do livro, ressalta três dos sete contos: Rolex de ouro chama a atenção de bandido, Letra de tango e Pelo avesso - sugestões de leitura que parecem produtivas para o entendimento deste trabalho do autor.

A coletânea, no geral, é bastante bem escrita, o que demonstra a intimidade de Diniz com a construção da frase e a elaboração do discurso. Há no texto da quarta capa alusão a alguns expoentes do gênero dito policial no Brasil, como Rubem Fonseca, Luiz Alfredo Garcia-Roza e Marçal Aquino. Não classificaria Transversais do tempo como livro policial, assim como não se pode considerar, exatamente, a obra de Fonseca ou de Aquino sob tal rótulo simplificador.

Em Rolex de ouro chama a atenção de bandido, um inescrupuloso assessor de imprensa livra-se da acusação de um crime de maneira irônica. O texto, na verdade, lembra mais uma crônica divertida e bem costurada, com a acidez de comentários sarcásticos bem colocados. Como no restante do volume, o autor trabalha a crueldade humana e o inusitado das situações extremas com a leveza de um relato direto, como se a temática fosse algo banal, e não o universo violento e traiçoeiro que corrói por dentro a sociedade contemporânea.

Este aspecto surge com a máxima relevância em Letra de tango, diálogo entre um delegado e um criminoso, investigação da frieza e da ausência de valores que permeiam as atitudes inexplicavelmente violentas, algo que lembra momentos iluminados da prosa recente, como o texto O monstro, do livro homônimo de Sérgio Sant'Anna (um dos mais brilhantes do autor carioca).

Pelo avesso é engenhoso relato escrito com a inversão da linha do tempo, uma história que começa no desfecho e vai voltando, voltando até os momentos que antecedem a tragédia, em que tudo aparentemente está bem. Mistura de um vídeo passado de trás para frente, nas mãos de quem aciona o controle remoto para retroceder a narrativa e uma reconstituição policial, no melhor estilo das atuais e vibrantes séries investigativas da TV, o conto é primoroso e, em alguns aspectos, o mais notável do volume.

Em termos de conjunto, o livro perde um pouco na regularidade dos textos. Rastros na sarjeta e O inominado não têm a mesma força dos acima mencionados. Entre espelhos e sombras, relato mais longo que encerra Transversais do tempo, é um tanto confuso. A personagem Delphine, que encanta e perturba o narrador, intercala à narrativa textos que escreve esparsamente em cadernos. E o conto é longamente interrompido pelos supostos textos da moça. Neste mar de histórias, um dos relatos de Delphine, sobre dois homens que vivem algemados, como irmãos siameses, um agricultor e um mágico, atados por uma história inusitada e bastante criativa, vale por todo o conto. Penso até que o argumento ali desenvolvido daria um extraordinário conto independente, ou mesmo um romance. A relação destes dois personagens é mais intensa e instigante que a própria relação do narrador com Delphine.

Nada mais sugestivo para concluir este breve olhar sobre Transversais do tempo que o conto A saideira, que abre o volume. Como estrutura narrativa, construção de trama e de personagens, é o mais bem resolvido do livro. O sussurrar da personagem no momento derradeiro do texto é surpreendente e dá ao relato uma dimensão que o ressalta do restante do conjunto.

Dentro do panorama contemporâneo da prosa brasileira, afora os rótulos de gênero, Tailor Diniz apresenta um texto enxuto e consistente, mais um autor de personalidade vindo das terras do extremo Sul, solo abençoado que nos dá a esperança de continuar existindo, mesmo que o resto do Brasil se afunde no galopante analfabetismo funcional, autores que nos representam e nos alegrem com uma prosa digna de uma nação que um dia contou com Erico Verissimo, Graciliano Ramos e João Guimarães Rosa como seus nomes mais destacados.


Sobre o autor:
Tailor Diniz nasceu em Júlio de Castilhos (RS), em 1955. Atualmente, reside em Porto Alegre. É jornalista, escritor e roteirista de cinema. É co-autor do roteiro e autor do conto que deu origem ao filme Terra prometida, ganhador do prêmio de Melhor Filme Curta Metragem em 16mm do festival de Cinema de Gramado, em 2006. Transversais do tempo é seu décimo livro. O romance O assassino usava batom (1997) recebeu o prêmio Destaque em Narrativa Longa do Prêmio Açorianos de Literatura, em 1998. Atualmente, Tailor Diniz orienta oficinas de contos em Porto Alegre.


• Trecho de Transversais do tempo

Meu chefe, o Verinaice, me chamou agora há pouco.

"Que pesadelo!"

Verinaice é o apelido dele aqui na empresa. Depois que a direção resolveu pagar um curso de inglês para ele, o homem passou a meter inglês em toda e qualquer conversa. Outro dia, fomos fazer um desses cursos de Qualidade Total, e quando chegou a vez dele de mostrar o papel onde cada um devia escrever, com um mínimo de palavras possíveis, qual era a sua filosofia de vida, ele mostrou, cheio de amor para dar, mas sempre com aquele seu jeito idiota de ser, um very nice bem grande, como se estivesse acabando de descobrir a pólvora e a penicilina. E não soube dizer outra coisa durante o resto do curso. Verinaice pra cá, Verinaice pra lá, encheu o saco de todo mundo, a nulidade.

(do conto Rolex de ouro chama a atenção de bandido)

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