Abril vermelho Santiago Roncagliolo Trad.: Joana Angélica d'Avila Melo Alfaguara 291 págs.
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| Santiago Roncagliolo: nenhuma dobra da realidade permancece sem explicação. |
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O romance Abril vermelho, do peruano Santiago Roncagliolo, vencedor do Prêmio Alfaguara de Romance 2006, é um thriller que reúne suspense, terrorismo, paixão, violência, neuroses familiares, política e humor. Todos esses elementos são arranjados por mão firme, hábil em criar uma trama que - depois de enganar o leitor com pistas falsas - será resolvida apenas nas últimas páginas. Entre 9 de março e 3 de maio de 2000, nos estertores do governo Alberto Fujimori, o promotor distrital adjunto Félix Chacaltana Saldívar vê-se envolvido numa série de terríveis e inexplicáveis assassinatos. Decepcionado com o casamento, ele abandonara Lima, a capital, para viver em Ayacucho, a cidadezinha onde nasceu. E lá, ao contrário da tranqüilidade que busca, servindo a um Estado no qual os militares e o serviço de inteligência comandam a democracia de fachada, à sombra do Sendero Luminoso, Chacaltana terá de enfrentar inúmeras verdades. Ele é o burocrata de meticulosidade ímpar, um perfeccionista cuja compulsão não se restringe apenas ao apego às leis, mas abraça cada detalhe de sua vida, incluindo o uso da sintaxe nos relatórios que envia aos superiores. Preocupa-se com a expressão perfeita, independentemente de relatar ou não a verdade. Ao mesmo tempo, é tímido, ingênuo, menosprezado por todos e alvo de chacotas. Parece flanar acima da realidade, dividido entre a parvoíce e um agudo senso de dever, que o forçará a seguir em frente nas investigações, apesar do seu receio e dos empecilhos criados por policiais e militares. O início da história oferece ao leitor páginas cômicas, relatadas por um narrador sarcástico, nas quais surge Chacaltana, esse promotor que dialoga com a mãe já falecida e age em seu cotidiano como se ela estivesse viva; e que, para se sentir seguro, chega a dormir na cama materna. Lentamente, à medida que os crimes se sucedem e a investigação avança, ele se arrepende de cada nova pista descoberta, pois sabe que isso o obriga a perseverar. Forçado a agir, o homem que acreditava representar a lei descobre, atônito, uma realidade sobre a qual não possui nenhum poder. A cada passo, Chacaltana percebe que seus relatórios são peças inócuas dentro da vasta e emaranhada máquina estatal, e, ainda pior, que todos estão envolvidos numa vergonhosa trama: militares, governo e Igreja - há, por exemplo, um crematório, construído por solicitação do Exército, no subsolo da casa paroquial.
Poder e linguagem A partir de certo momento, Chacaltana nota que todos aqueles com quem conversa acabam assassinados. Torna-se, desse modo, o centro dos crimes que investiga: uma espécie de Édipo, buscando às cegas o assassino que, indiretamente, parece ser ele próprio. Desconfiado de todos, vendo todas as certezas ruírem, "se o promotor Chacaltana sabe algo por experiência própria", como afirmou Santiago Roncagliolo, em seu discurso ao receber o Prêmio Alfaguara,
é que toda paz implica olhar o horror cara a cara e ser capaz de certo grau de perdão. Mas ele também sabe que todo perdão traz consigo uma injustiça. Viver sem sangue significa, de alguma forma, conviver com aqueles que o derramaram. Depois do que experimentou neste livro, o promotor se pergunta o que pode ser pior: deixar os assassinos em paz ou deixar que sigam matando. Mas também sabe que não lhe cabe encontrar resposta para essa pergunta. As sociedades seguem dando suas próprias respostas e não se preocupam muito com sua opinião.
Desorientado, sentindo-se perdido, mas assim mesmo avançando em suas investigações, Chacaltana é o bufão que se transforma em herói trágico. Tendo como parte do cenário as comemorações da Semana Santa e a religiosidade peruana, com seus mitos e crendices nascidos da aculturação entre espanhóis e quíchuas, Abril vermelho trata, basicamente, da irracionalidade subjacente a todo poder abusivo, que transforma inocentes em culpados - a irracionalidade que acaba sempre erigindo o Estado como o único grande inocente. Esse poder se manifesta no texto não só por meio dos horrendos assassinatos, mas também na linguagem: contrapondo-se aos relatórios de Chacaltana, há uma outra voz que se manifesta, mas cometendo erros de ortografia e utilizando uma sintaxe confusa. A comparação entre esses dois discursos, no entanto, não pode ser feita aqui, sob pena de, ao realizá-la, desvendar-se a autoria dos crimes. Vale, contudo, chamar a atenção dos leitores para essa voz que chega ao desvario, numa clara contraposição à racionalidade do texto legal. Um outro interessante recurso de linguagem refere-se à mudança de comportamento de Chacaltana, pois sua gradual tomada de consciência será acompanhada de modificações substanciais em seu discurso. Ele passa a falar com ironia e, nas entrelinhas do código burocrático de seus relatórios, deixa que a verdade transpareça. Ainda que em Abril vermelho estejam todos os ingredientes de um thriller prazeroso - incluindo os estereótipos da mocinha inocente que pode ser culpada, do militar sádico e extrema-direita, do juiz fingido e do médico-legista debochado, que come chocolates a ponto de se lambuzar sobre os cadáveres -, trata-se de um romance que não se propõe a ser apenas um ótimo passatempo. Além do cuidadoso trabalho de linguagem, o irônico narrador nos oferece a saga de Félix Chacaltana Saldívar, na qual nenhuma dobra da realidade permanecerá sem explicação, incluindo as memórias familiares do protagonista, seu obscuro sentimento de culpa e suas angustiantes neuroses. A cada página, o leitor será convidado a lembrar a lição das melhores tragédias: todo homem paga um alto preço para se tornar herói.
O AUTOR Santiago Roncagliolo nasceu em Lima, Peru, em 1975. Já trabalhou como roteirista de telenovelas e cinema, repórter, biógrafo de uma milionária, ghost-writer, tradutor de literatura gay e autor de livros infantis. Abril vermelho foi traduzido para mais de dez idiomas. Atualmente, Roncagliolo vive em Barcelona, Espanha, onde colabora com o jornal El País e outros periódicos latino-americanos. Assina o blog http://blogs.elboomeran.com/roncagliolo/. TRECHO • Abril vermelho Chacaltana olhou para o buraco. Seus pés se negaram a se mover. Ouviu atrás de si o engatilhar de um fuzil. Deu alguns passos, muito lentos, antes de sentir o empurrão que o precipitava para a escavação. Escutou às suas costas o avançar de um par de botas militares. Aproximou-se do grande buraco e se deteve a um metro da borda. Voltou a sentir um empurrão. Suava. Puxou o lenço e enxugou a testa. Atreveu-se a olhar para trás. O comandante estava a uns 20 metros dele e lhe acenou para que se debruçasse. Ao redor, os soldados tinham aberto a roda em direção aos montes que cercavam o buraco, como que para não ver. O promotor sentiu mais um empurrão. Não sabia se era uma mão ou o cano de um FAL. Voltou-se para ver a cara do soldado que havia chegado com ele. O soldado estava pálido e resmungou: - Vire-se, merda. O promotor olhou o céu. O céu estava limpo, apenas algumas nuvens negras num canto, provavelmente dirigindo-se à Ceja de Selva. Baixou de novo o olhar para o chão. Lentamente, avançou um passo e esticou o pescoço, assomando ao negror circular da escavação. O espetáculo ali dentro o desconcertou. De início, pareceu-lhe ver apenas caixas, caixas velhas e destruídas, em meio a pedaços de pano carcomidos pelo tempo e pela terra. Depois, porém, o que ele havia pensado serem rochas e terra foi ganhando uma forma mais precisa diante dos seus olhos. Eram membros, braços, pernas, alguns semipulverizados pelo tempo de enterramento, outros com os ossos claramente perfilados e rodeados de tecido e papelão, cabeças negras e terrosas umas sobre as outras, formando um monte de restos humanos com vários metros de profundidade. Nem sequer se via o final desse acúmulo de ossos e corpos secos. O promotor caiu de joelhos e vomitou. Enquanto devolvia o pouco que tinha no estômago, percebeu que estava em posição perfeita para se unir aos corpos lá embaixo, a nuca exposta, oferecendo-se aos fuzis, o corpo inclinado sobre os montículos de morte, a mente perdida em algum momento do tempo, quando tudo era ainda mais perigoso, perguntando-se quanto demoraria esse tempo para se esgotar, quantos anos a memória ainda levaria para desaparecer, a dor para se extinguir, as feridas para cicatrizarem, os olhos para se fecharem.
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