Curitiba, 09 de fevereiro de 2010.
rascunho - Página inicial
 
 
Rascunho
Fale conosco
Quem somos
 
Seções
Além da literatura
Axis mundi
Cartas
Encontros (Wilson Sagae)
Eu recomendo
Literalmente (Marco Jacobsen)
Ponto final
Prateleira
Rodapé Rinaldo de Fernandes
Translato (Eduardo Ferreira)
Vaga-lume
Vidraça
 
Colunistas
Adriana Lisboa
Affonso Romano de Sant'Anna
Carpinejar
Claudia Lage
Fernando Monteiro
Flávio Carneiro
José Castello
Luís Henrique Pellanda
Luiz Bras
Luiz Ruffato
Nelson de Oliveira
Raimundo Carrero
Rogério Pereira
 
Dom Casmurro
Contos
Oceanos
Poesia
 
Entrevistas
Críticas e Resenhas
Otro Ojo
Paiol Literário
Oficina Rascunho
 
Busca por palavras:
 
   
 
  .: Críticas e Resenhas
 
 
O PREÇO DE SER HERÓI
Com cuidadoso trabalho de linguagem, o thriller Abril vermelho, de Santiago Roncagliolo, ultrapassa a barreira do mero passatempo

Rodrigo Gurgel • São Paulo – SP

Abril vermelho
Santiago Roncagliolo
Trad.: Joana Angélica d'Avila Melo
Alfaguara
291 págs.

Santiago Roncagliolo: nenhuma dobra da realidade permancece sem explicação.



O romance Abril vermelho, do peruano Santiago Roncagliolo, vencedor do Prêmio Alfaguara de Romance 2006, é um thriller que reúne suspense, terrorismo, paixão, violência, neuroses familiares, política e humor. Todos esses elementos são arranjados por mão firme, hábil em criar uma trama que - depois de enganar o leitor com pistas falsas - será resolvida apenas nas últimas páginas.

Entre 9 de março e 3 de maio de 2000, nos estertores do governo Alberto Fujimori, o promotor distrital adjunto Félix Chacaltana Saldívar vê-se envolvido numa série de terríveis e inexplicáveis assassinatos. Decepcionado com o casamento, ele abandonara Lima, a capital, para viver em Ayacucho, a cidadezinha onde nasceu. E lá, ao contrário da tranqüilidade que busca, servindo a um Estado no qual os militares e o serviço de inteligência comandam a democracia de fachada, à sombra do Sendero Luminoso, Chacaltana terá de enfrentar inúmeras verdades.

Ele é o burocrata de meticulosidade ímpar, um perfeccionista cuja compulsão não se restringe apenas ao apego às leis, mas abraça cada detalhe de sua vida, incluindo o uso da sintaxe nos relatórios que envia aos superiores. Preocupa-se com a expressão perfeita, independentemente de relatar ou não a verdade. Ao mesmo tempo, é tímido, ingênuo, menosprezado por todos e alvo de chacotas. Parece flanar acima da realidade, dividido entre a parvoíce e um agudo senso de dever, que o forçará a seguir em frente nas investigações, apesar do seu receio e dos empecilhos criados por policiais e militares.

O início da história oferece ao leitor páginas cômicas, relatadas por um narrador sarcástico, nas quais surge Chacaltana, esse promotor que dialoga com a mãe já falecida e age em seu cotidiano como se ela estivesse viva; e que, para se sentir seguro, chega a dormir na cama materna. Lentamente, à medida que os crimes se sucedem e a investigação avança, ele se arrepende de cada nova pista descoberta, pois sabe que isso o obriga a perseverar. Forçado a agir, o homem que acreditava representar a lei descobre, atônito, uma realidade sobre a qual não possui nenhum poder. A cada passo, Chacaltana percebe que seus relatórios são peças inócuas dentro da vasta e emaranhada máquina estatal, e, ainda pior, que todos estão envolvidos numa vergonhosa trama: militares, governo e Igreja - há, por exemplo, um crematório, construído por solicitação do Exército, no subsolo da casa paroquial.

Poder e linguagem
A partir de certo momento, Chacaltana nota que todos aqueles com quem conversa acabam assassinados. Torna-se, desse modo, o centro dos crimes que investiga: uma espécie de Édipo, buscando às cegas o assassino que, indiretamente, parece ser ele próprio. Desconfiado de todos, vendo todas as certezas ruírem, "se o promotor Chacaltana sabe algo por experiência própria", como afirmou Santiago Roncagliolo, em seu discurso ao receber o Prêmio Alfaguara,

é que toda paz implica olhar o horror cara a cara e ser capaz de certo grau de perdão. Mas ele também sabe que todo perdão traz consigo uma injustiça. Viver sem sangue significa, de alguma forma, conviver com aqueles que o derramaram. Depois do que experimentou neste livro, o promotor se pergunta o que pode ser pior: deixar os assassinos em paz ou deixar que sigam matando. Mas também sabe que não lhe cabe encontrar resposta para essa pergunta. As sociedades seguem dando suas próprias respostas e não se preocupam muito com sua opinião.

Desorientado, sentindo-se perdido, mas assim mesmo avançando em suas investigações, Chacaltana é o bufão que se transforma em herói trágico.

Tendo como parte do cenário as comemorações da Semana Santa e a religiosidade peruana, com seus mitos e crendices nascidos da aculturação entre espanhóis e quíchuas, Abril vermelho trata, basicamente, da irracionalidade subjacente a todo poder abusivo, que transforma inocentes em culpados - a irracionalidade que acaba sempre erigindo o Estado como o único grande inocente.

Esse poder se manifesta no texto não só por meio dos horrendos assassinatos, mas também na linguagem: contrapondo-se aos relatórios de Chacaltana, há uma outra voz que se manifesta, mas cometendo erros de ortografia e utilizando uma sintaxe confusa. A comparação entre esses dois discursos, no entanto, não pode ser feita aqui, sob pena de, ao realizá-la, desvendar-se a autoria dos crimes. Vale, contudo, chamar a atenção dos leitores para essa voz que chega ao desvario, numa clara contraposição à racionalidade do texto legal.

Um outro interessante recurso de linguagem refere-se à mudança de comportamento de Chacaltana, pois sua gradual tomada de consciência será acompanhada de modificações substanciais em seu discurso. Ele passa a falar com ironia e, nas entrelinhas do código burocrático de seus relatórios, deixa que a verdade transpareça.

Ainda que em Abril vermelho estejam todos os ingredientes de um thriller prazeroso - incluindo os estereótipos da mocinha inocente que pode ser culpada, do militar sádico e extrema-direita, do juiz fingido e do médico-legista debochado, que come chocolates a ponto de se lambuzar sobre os cadáveres -, trata-se de um romance que não se propõe a ser apenas um ótimo passatempo. Além do cuidadoso trabalho de linguagem, o irônico narrador nos oferece a saga de Félix Chacaltana Saldívar, na qual nenhuma dobra da realidade permanecerá sem explicação, incluindo as memórias familiares do protagonista, seu obscuro sentimento de culpa e suas angustiantes neuroses. A cada página, o leitor será convidado a lembrar a lição das melhores tragédias: todo homem paga um alto preço para se tornar herói.

O AUTOR
Santiago Roncagliolo nasceu em Lima, Peru, em 1975. Já trabalhou como roteirista de telenovelas e cinema, repórter, biógrafo de uma milionária, ghost-writer, tradutor de literatura gay e autor de livros infantis. Abril vermelho foi traduzido para mais de dez idiomas. Atualmente, Roncagliolo vive em Barcelona, Espanha, onde colabora com o jornal El País e outros periódicos latino-americanos. Assina o blog http://blogs.elboomeran.com/roncagliolo/.


TRECHO Abril vermelho

Chacaltana olhou para o buraco. Seus pés se negaram a se mover. Ouviu atrás de si o engatilhar de um fuzil. Deu alguns passos, muito lentos, antes de sentir o empurrão que o precipitava para a escavação. Escutou às suas costas o avançar de um par de botas militares. Aproximou-se do grande buraco e se deteve a um metro da borda. Voltou a sentir um empurrão. Suava. Puxou o lenço e enxugou a testa. Atreveu-se a olhar para trás. O comandante estava a uns 20 metros dele e lhe acenou para que se debruçasse. Ao redor, os soldados tinham aberto a roda em direção aos montes que cercavam o buraco, como que para não ver. O promotor sentiu mais um empurrão. Não sabia se era uma mão ou o cano de um FAL. Voltou-se para ver a cara do soldado que havia chegado com ele. O soldado estava pálido e resmungou:

- Vire-se, merda.

O promotor olhou o céu. O céu estava limpo, apenas algumas nuvens negras num canto, provavelmente dirigindo-se à Ceja de Selva. Baixou de novo o olhar para o chão. Lentamente, avançou um passo e esticou o pescoço, assomando ao negror circular da escavação.

O espetáculo ali dentro o desconcertou. De início, pareceu-lhe ver apenas caixas, caixas velhas e destruídas, em meio a pedaços de pano carcomidos pelo tempo e pela terra. Depois, porém, o que ele havia pensado serem rochas e terra foi ganhando uma forma mais precisa diante dos seus olhos. Eram membros, braços, pernas, alguns semipulverizados pelo tempo de enterramento, outros com os ossos claramente perfilados e rodeados de tecido e papelão, cabeças negras e terrosas umas sobre as outras, formando um monte de restos humanos com vários metros de profundidade. Nem sequer se via o final desse acúmulo de ossos e corpos secos. O promotor caiu de joelhos e vomitou. Enquanto devolvia o pouco que tinha no estômago, percebeu que estava em posição perfeita para se unir aos corpos lá embaixo, a nuca exposta, oferecendo-se aos fuzis, o corpo inclinado sobre os montículos de morte, a mente perdida em algum momento do tempo, quando tudo era ainda mais perigoso, perguntando-se quanto demoraria esse tempo para se esgotar, quantos anos a memória ainda levaria para desaparecer, a dor para se extinguir, as feridas para cicatrizarem, os olhos para se fecharem.




VOLTAR