O senhor vai entender Claudio Magris Trad.: Maurício Santana Dias Companhia das Letras 55 págs.
Diferente de seus dois livros publicados no Brasil - Danúbio e Microcosmos (ambos pela Rocco) -, nos quais ficção, ensaio e literatura de viagens se mesclam para dar vida a um dos melhores textos europeus da atualidade, desta vez Claudio Magris nos apresenta o brevíssimo O senhor vai entender, publicado na Itália em 2006 e agora traduzido no Brasil pela Companhia das Letras. A voz que narra O senhor vai entender é a da mitológica Eurídice, mulher de Orfeu, confinada ao mundo inferior, sob o poder de Hades, a quem ela se dirige para relatar o que sucedeu durante a tentativa frustrada de ser reconduzida, por seu esposo, à vida na superfície terrestre. Nesse mundo de pouca luz, cujos habitantes são sonhos que deslizam e se perdem antes de serem reconhecidos, mundo onde todos se assemelham - exatamente porque só a morte tem o poder de nos tornar iguais -, Eurídice deleita-se em sua condição, regozijando-se com as normas que impedem os mortais de ali penetrarem, e recordando, com evidente desprazer, a vida terrena. O outro lado do espelho Para aqueles que conhecem o mito de Orfeu e Eurídice, no entanto, essa mulher - que na versão tradicional da narrativa permanece muda - surpreenderá ainda mais. Segundo o que relata, o amor e a saudade de seu marido não vibram exatamente por ela, mas pelos favores que lhe prestara, desbastando os poemas que ele escrevia, tornando-os mais bem acabados. Em um discurso cambiante e irônico, Eurídice se revela não apenas musa, mas verdadeira autora da obra de um Orfeu irresponsável, manipulador e adúltero. Assim, não foi movido pelo amor que ele decidiu resgatá-la da terra dos mortos, mas apenas por egoísmo. Foi ela quem o elevou à condição de homem, ensinando-o "a olhar a escuridão e não se importar com o pavor". Eurídice canta a si mesma como guia, mestra e libertadora desse Orfeu fraco e infantil. Ao mesmo tempo, contudo, a certeza de ser superior não diminui seus sentimentos, não obscurece sua consciência da paixão que nutre pelo esposo. Eurídice sabe o quanto eles se completam. "O amor é este sono em que se continua e se apaga docemente sem se apagar realmente nunca", ela diz. E se decide ficar em meio às sombras, é exatamente por amá-lo, para que ele não conheça a verdade - o que espera o homem depois da morte - e possa, assim, seguir escrevendo seus poemas, sonhando com respostas ideais que em nada correspondem ao que Eurídice já conhece: "estamos do outro lado do espelho, que é também um espelho". Sem idealizações Narradora não só consciente do seu poder, mas devotada ao amado e, ao mesmo tempo, vaidosa, cheia de vontades, por meio dessa mulher nem um pouco romântica, mas sinceramente apaixonada, Claudio Magris cumpre o ritual que garante a sobrevivência do mito - e, ao fazê-lo, assegura a magia da contínua e renovada transmissão literária, e também da própria literatura: a arte de contar sempre as mesmas histórias, mas de maneira original. Agradavelmente infiel ao mito tradicional, Magris recria nossa herança narrativa, concedendo nova força à história quiçá desgastada pela repetição. Recontar é, neste caso, revivescer o mito, permitindo que Orfeu e Eurídice ganhem simbolismos inusitados para os leitores do nosso tempo. Não é diferente, aliás, do que os próprios gregos fizeram, pois ninguém jamais descobrirá, em meio às escassas fontes arqueológicas, qual é a narrativa verdadeiramente primeva, inspiradora de todas as outras. Claudio Magris desloca o relato da figura do herói mítico - o eleito, o que desafia todos os limites e parte ao encontro do eterno, do perigo, ou em busca de respostas e soluções - para a da mulher cujo silêncio, na história original, lembrava certa tranqüila submissão. Ao calar Orfeu, engrandece Eurídice e humaniza a narrativa, aproximando-a da nossa própria realidade. O autor não deseja reforçar o mito que pode sugerir preceitos morais - como o da superação de todas as dificuldades em nome do amor - ou falsamente estéticos - o da arte cujo poder vence a morte. Distante das idealizações fúteis, Magris nos oferece uma Eurídice satisfeita com sua própria sorte e um Orfeu impelido por motivos censuráveis. Essa Eurídice identificada com seu destino assemelha-se, aliás, à de Rainer Maria Rilke[1]. Ainda que a de Magris não tenha a suavidade proposta pelo poeta, ela se encontra igualmente centrada, praticamente transmutada em outro ser, para o qual a volta ao mundo dos vivos talvez não seja a melhor escolha: [...] Estava em si, de altas esperanças, E não pensava no homem que lhe ia à frente nem pensava no caminho que subia para a vida. Estava em si. E ser-morta a colmava de plenitude. Qual fruto cheio de dulçor e treva, sentia-se repleta da sua grande morte, que lhe era nova e que ela não compreendia. Ela entrara numa outra, uma inatingível donzelice; seu sexo se fechara como uma flor recente ao fim da tarde e suas mãos se haviam desabituado tanto do enlace que até mesmo o toque infinitamente suave do leve deus a conduzi-la lhe doía como excessiva intimidade. Ela não era mais aquela mulher loura Que os cantos do poeta invocaram tantas vezes, não mais o aroma e a ilha do espaçoso leito, nem propriedade mais daquele homem. Já estava solta como longa cabeleira e outorgada como chuva sobrevinda e repartida como cêntupla ração. Ela era já raiz. [...] Desmistificar a arte Adicionando novas camadas de sentido ao discurso da tradição, Claudio Magris também questiona, de maneira oblíqua, se não haveria algo de megalomaníaco em um poeta que confia exageradamente no poder da sua arte, a ponto de acreditá-la suficiente para domar os guardiões do reino de Hades e resgatar sua amada. Não seria digno de riso o escritor que se mostra tão absolutamente seguro do que pode fazer, chegando mesmo a desprezar os favores divinos? Desmistificar a força da arte, mostrar que ela nada tem de prodigioso, aproxima o Orfeu de Magris daquele sugerido por Platão - no Banquete -, segundo o qual Hades não teria entregado ao poeta a verdadeira Eurídice, mas apenas sua sombra. E por um só motivo: Orfeu não passava de um homem fraco, destituído de virtudes, sem coragem para se unir ao objeto do seu amor através da única maneira possível, ou seja, aceitando morrer. Para Claudio Magris, entretanto, Eurídice ama esse escritor presunçoso. Conhece seus defeitos, mas quer, ainda uma vez, salvá-lo de si mesmo. Ela o mantém, assim, na inconsciência, pois sabe - agora que é uma sombra dentre milhares de outras - que a verdade pode esmagar o homem. O AUTOR CLAUDIO MAGRIS nasceu em Trieste, na Itália, em 10 de abril de 1939. Graduado como germanista pela Universidade de Turim, onde ocupou a cátedra de literatura alemã, Magris atualmente é professor da Faculdade de Filosofia e Letras da Universidade de Trieste. Foi senador entre 1994 e 1996. Colunista habitual do Corriere della Sera, tem ampla obra ensaística, enfocando E. T. A. Hoffmann, Henrik Ibsen, Italo Svevo, Robert Musil, Hermann Hesse e Jorge Luis Borges. Traduziu para o italiano Henrik Ibsen, Heinrich von Kleist e Arthur Schnitzler. Recebeu, dentre outros prêmios, o Strega (o mais importante das letras italianas), o Erasmus (Holanda), o Leipzig Book Award (Alemanha) e, em 2004, o Príncipe de Astúrias (Espanha). Infelizmente, apenas uma pequena parte de sua obra está traduzida no Brasil. TRECHO • O senhor vai entender Não me assustava a idéia de logo me ver de novo lá fora, onde tudo é tão mais difícil e cruel do que aqui na Casa. Sozinha, sim, eu teria tido um medo imenso e jamais sairia desta paz que eu invocara quando aquele morbo mais venenoso que uma serpente me prostrara. Também ele, sozinho lá fora, com certeza deve ter tido medo; talvez por isso tenha vindo me buscar. Não para me salvar - embora estivesse convencido disso, dando a entender em suas canções. Talvez enganadoras, mas fascinantes; eu o teria seguido só para ouvi-las de novo. Não, ele não viera para me salvar, mas para ser salvo. Como posso cantar minhas canções em terra estrangeira?, me dizia. Eu era a sua terra perdida, a linfa de sua floração, de sua vida. Ele veio para retomar a sua terra, da qual fora exilado. E também para ser mais uma vez protegido daqueles golpes ferozes que chegavam de toda parte e que eu sempre aparei para ele, as flechas venenosas destinadas a ele que entretanto encontravam meu peito, tenro nas mãos dele, mas forte como um escudo redondo recebendo e aparando aquelas flechas, interceptando e absorvendo todo o veneno antes que chegasse a ele. No final foram tantas que o veneno me venceu, mas entre os braços dele eu também fui feliz e sem medo; não importava onde a flecha atingisse, se no flanco ou no coração, no meu ou no seu, quando os dois são um. Sem ele, também eu não teria sido nada, assim como ele; uma mulherzinha e um homúnculo que olham apavorados ao redor, tentando não fazer feio, sem ver os lírios do campo.
[1] "Orfeu. Eurídice. Hermes", in R. M. Rilke - poemas, tradução e introdução de José Paulo Paes, Editora Cia. das Letras, SP, 1993.
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